sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O direito a terra e o de permanecer nela

POR MARIA ALINE MORAES

São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados (art. 6º da Constituição Federal). Articulados em movimentos, os trabalhadores rurais, persistentemente, travaram embates políticos e econômicos, atravessando uma guerra de baixa intensidade com latifundiários e, hoje, só em Pernambuco, 1.024 famílias conquistaram a posse da terra. Contudo, a bandeira continua a balançar incessantemente. A aquisição dos direitos humanos ainda é uma luta.

Em 1970, foi instituído o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) com a finalidade de cadastrar e administrar os imóveis e terras públicas da União, contribuindo para o desenvolvimento rural sustentável e recuperação da infra-estrutura, além de intencionar ser referência internacional de soluções de inclusão social. Com objetivo semelhante foi criado, em 1999, o Ministério do Desenvolvimento Agrário.

As instituições foram inseridas no Brasil a fim de melhor distribuir o monopólio mais antigo do país, a terra. O grande entrave tem sido os aspectos infra-estruturais que não estão devidamente acompanhando essa mudança. Os recursos necessários para a construção das agrovilas têm chegado em partes, aos poucos e devagar.

Cícero, Luiza e Nzinga formam a família Cavalcante e Melo que reside no assentamento Chico Mendes II, localizado no município de Tracunhaém, Zona da Mata Norte do Estado. Eles são apenas um exemplo da realidade que vivem os assentados pelo programa da Reforma Agrária. Passaram nove anos na “lona preta”. Em novembro de 2005, conseguiram oito hectares de terra do Complexo Prado.
Construíram uma casa de taipa e, nos primeiros anos como assentados, viraram-se com o que tinham por motivo de não terem recebido nenhuma das modalidades do Crédito Instalação, o qual se designa como provedor de condições dignas de ocupação, de produção e manutenção das famílias na parcela rural.

O Apoio Inicial que equivale a R$ 2.4 mil por família só veio chegar dois anos depois e ainda, como se fosse o Fomento (uma das cinco modalidades do crédito). “Os trabalhadores precisam de mais informação. A maioria desconhece esse pleito e não se monitora nem se cobra tudo o que teríamos direito. Seria muito bom ter um canal aberto com a imprensa e com pessoas entendidas e preocupadas com nossos problemas”, diz Luiza sobre a omissão dos benefícios que servem para o crescimento dos projetos.

Também plantaram e colheram à luz do dia. À noite, a energia elétrica só veio chegar em suas casas três anos mais tarde, através do Programa “Luz para Todos”. Finalmente, no final de 2008, a Aquisição de Materiais de Construção, ainda do Crédito Instalação, permitiu-os construir a casa de alvenaria e o acesso à água encanada. Vale salientar, que até o ano passado a competência era de R$ 5 mil para os materiais e R$ 1 mil para o pedreiro. Valor este, que os obrigava a fazer empréstimos ou continuar a morar na taipa. Este ano, entendendo que a quantia era irrisória, o governo aumentou a verba para R$ 10 mil, sendo R$ 8 mil para a casa de material de construção – repassado diretamente aos armazéns – e R$ 2 mil para a mão-de-obra.

A Assessoria Técnica, Social e Ambiental (Ates) é um programa de natureza solidária, permanente, pública e gratuita, com ênfase na agroecologia, cooperação e economia popular. “A questão da assistência técnica ambiental é muito importante. Ela engloba tanto a capacitação contínua dentro do projeto como orienta e incentiva o agricultor sobre o que fazer com o que produzir”, explica o coordenador do Pólo de Desenvolvimento do Incra/PE, Jonatan.



O que vem acontecendo, entretanto, é a carência desse serviço de assessoramento especializado em conseqüência da incompatibilidade do número de técnicos com o de famílias. O Incra só conseguiu disponibilizar um técnico para 80 famílias. O fato é que o Instituto precisa terceirizar esse serviço e, se antes o problema era a falta de verbas, no ano passado houve retorno destas ao governo por não ter tido nenhuma empresa com proposta de projeto qualificada a prestar esse trabalho, de acordo com nova regulação.

É relevante, esclarecer o papel da prefeitura mediante os assentados. As prefeituras são responsáveis pelo bem-estar da população proporcionando saúde, educação, transporte, segurança, saneamento básico e cuidados ao meio ambiente. Todavia, os assentados estão lidando com um alto déficit social em relação à qualidade de vida.

A situação dos assentados do Complexo Prado, onde mora a família Cavalcante e Melo o transporte público, definitivamente, não existe. Para chegar ao centro da cidade eles têm que ter a sorte de arranjar uma carona – e desta ser segura – ou, então, optar por uma moto-taxi que custa de R$ 5 a R$ 7. Além do alto risco nas estradas locais, em decorrência dos buracos, o que torna a escassez do transporte ainda mais problemático é num caso de necessidade de atendimento médico-odontológico. É necessário andar uma hora para chegar no posto de saúde mais próximo, localizado em Belo Oriente.


Outro fator é a ausência da coleta do lixo na região. Na medida em que o caminhão de lixo não chega até lá a comunidade se vê obrigado a queimar o lixo que produzem, danificando o solo que é a principal ferramenta de trabalho deles mesmos. Uma das defasagens que mais merecem queixa entre eles é a falta do serviço dos Correios na região. Para receber uma carta eles precisam pegar um transporte até o centro de Carpina, cidade vizinha a Tracunhaém. É um aspecto que conflita a comunicação e até o estímulo ao conhecimento.

Na prefeitura de Tracunhaém ainda não existe nenhum planejamento voltado às famílias assentadas na região nem verba municipal destinada a programas agrícolas. A secretária administrativa do município, Lúcia Pereira alegou que, na medida do possível, está tentando ajudar os assentados. Ela também apontou um “resgate da cultura rural na cidade, já havendo um abastecimento das feiras através dos produtos dos assentados e provando que eles conseguem se organizar bem e morar em comunidade”. É uma questão de compreender uma transformação social e reestruturar-se para receber e atender a mudança.


É hora de transformar o que não dá mais


Incêndio em parcelas do Assentamento Chico Mendes II e mutirão em apoio


No primeiro dia de janeiro de 2009, a fauna e a flora da parcela da família Cavalcante e Melo, e parte das vizinhas, foi destruída em um incêndio. O fogo veio da usina, mas até hoje desconhecesse a causa. A perda foi muito grande, comprometendo a fauna nativa, a qualidade da água produzida na região, o processo de sucessão agroecológica da propriedade, e, principalmente, os investimentos realizados na propriedade e da renda familiar.

Abalados e dispostos a se reerguer, a família pediu apoio a amigos e organizações sociais culminando em um belíssimo ato de solidariedade. Diversos grupos se prontificaram a levar sementes e mudas e replantar juntos a parcela perdida, entre eles o Emaus; Ipsia, da Itália; Famílias Unidas, de Camaragibe; SOS Corpo; Rede de Mulheres; Rede de Agroecologia da Mata Sul; FASE; Educadores Populares; além de amigos. “Foi muito positivo, aumentou as árvores. Deu pra avançar. A força da mobilização é, na verdade, nossa única segurança”, expressa Luiza.


Cícero e Luíza arando a terra junto aos amigos

terça-feira, 6 de outubro de 2009

TRAPEIROS DE EMAÚS: Em favor da sociedade e do meio ambiente

Reportagem Especial
Por ANTÔNIO MONTEIRO, QUENTIN DELAROCHE, MARCELA ALVES, MARIANA LINS e RUBEM CARNEIRO.


A Associação dos Trapeiros de Emaús Recife é uma entidade social sem fins lucrativos, que oferece às comunidades de baixa renda da Região Metropolitana do Recife (RMR) uma oportunidade de trabalho por meio da coleta, recuperação e venda de objetos usados. Em Pernambuco, o movimento foi fundado em 1996, sob a inspiração de dom Helder Camara, arcebispo da arquidiocese de Recife e Olinda à época. Atualmente, o movimento Emaús Internacional atua em mais de 40 países ao redor do mundo, através de 350 comunidades. Nessa série de reportagens você poderá saber um pouco mais sobre esse trabalho social desenvolvido na periferia do Recife.

A COLETA

O trabalho inicial dos Trapeiros de Emaús consiste na coleta de materiais recicláveis ou reutilizáveis, que possam ser restaurado para serem vendidos posteriormente por preços bem acessíveis a famílias de baixa renda. A lista de materiais de interesse da instituição é vasta. São coletados, além de materiais recicláveis, móveis, eletrodomésticos, roupas, sapatos, livros, condicionadores de ar, refrigeradores, e computadores.
Essa coleta é feita nos leitos dos rios Capibaribe e Beberibe. Objetos que poluem a cidade e podem ser reaproveitados estão na mira dos Trapeiros. Além de recolherem muitos materiais nas ruas e leitos de rios, os trapeiros também recebem muitas doações. Por dia, os trapeiros recebem cerca de vinte. Mensalmente, a quantidade de material reciclável arrecadado chega a cinco toneladas. A única exigência é que todos os materiais recolhidos ou recebidos estejam sempre em bom estado.
De acordo com o coordenador do movimento Emaús em Pernambuco, Luís Tenderine, os objetos recolhidos pela instituição garantem o sustento de 32 trapeiros, que participam do movimento, e a preservação de uma pequena parte do meio ambiente. “As peças coletadas são úteis, mas estão em desuso e muitas vezes poluindo a cidade. Esses itens são remodelados pelos próprios trapeiros, para depois serem revendidos. Nós prolongamos a vida de produtos que iam parar no lixo”, disse Tenderine.
As doações podem ser efetuadas na própria sede da Instituição Trapeiros de Emaús, no bairro de Dois Unidos, na Região Metropolitana do Recife (RMR). Para os doadores que não podem ir até o galpão mantido pelos Emaús Pernambuco, um caminhão e uma Kombi são disponibilizados para recolher os objetos a serem doados em sua residência. Afinal, o importante é doar e colaborar com essa missão.

SERVIÇO

Endereço: Rua Mamede Coelho, 53, Dois UnidosTelefone: 3451-2247 Site: www.emausrecife.org.br

A RECUPERAÇÃO

Há 13 anos, a Associação dos Trapeiros de Emaús realiza um trabalho pioneiro de coleta e recuperação de objetos em desuso, no Recife. A etapa de restauro é uma das mais importantes, pois garante a renda de muitas pessoas que encontram no projeto uma oportunidade de emprego e remuneração.
O processo de restauração dos objetos compreende, basicamente, três fases: avaliação, conserto e encaminhamento do material. Na primeira, tudo o que foi recolhido passa por uma triagem, para que seja selecionado o que ainda pode ser utilizado, o que precisa ser consertado e o que deve ser desmanchado. “Muitas vezes, o objeto não serve para uso, mas podemos desmanchá-lo e reutilizar as peças em outros equipamentos ou, ainda, vender o que há de aço ou metal nobre nele, por exemplo”, explica o vice-presidente da Associação, Carlos Cardeal.
Na etapa de conserto, participam pessoas de baixa renda preparadas pela Associação para recuperar os objetos. Neste momento, também são separados papelão, plástico, papel, metais e vidros para que possam ser vendidos a indústrias de reciclagem da região. “Essa fase é uma das mais importantes, porque o material reciclável arrecada um valor bastante significativo, que é revertido para os associados e para a manutenção de nossa instituição”, diz Carlos.
Por fim, tudo o que foi restaurado é encaminhado para um bazar semanal, onde as pessoas podem adquirir objetos bem conservados por preços populares. “Nós não resgatamos apenas materiais em desuso, mas vidas”, diz o presidente dos Trapeiros, Ronaldo Medeiros.

O BAZAR

O trabalho dos Trapeiros de Emaús não se restringe à coleta e à recuperação dos objetos doados. Uma outra importante tarefa é a venda, a preços populares, daquilo que conseguem restaurar. Todas as quintas e sábados, várias pessoas esperam a abertura do galpão aonde acontecem os bazares. Livros, revistas, móveis, refrigeradores, fogões, videogames, aparelhos telefônicos móveis e fixos, lp’s, eletroeletrônicos e tantos outros bens são expostos ao consumidor. O motorista Isaías Barbosa, 43 anos, é morador de um bairro vizinho a Dois Unidos e chegou logo cedo para encontrar o que queria. “Comprei os dois únicos chuveiros elétricos do lote. São seminovos e gastei somente cinco reais por cada um deles”, comemora Isaías. Apesar de elogiar a iniciativa, o motorista denuncia que atravessadores estão freqüentando o local. “Infelizmente, muita gente vem aqui para comprar barato e vender lá fora por um preço maior”, reclama ele.
Para o vice-presidente dos Trapeiros de Emaús, Carlos Cardeal, o maior atrativo do bazar é o custo-benefício. “É uma excelente alternativa para a população das comunidades mais pobres, pois os preços dos produtos podem cair até 80% em relação ao valor de mercado”, afirma Carlos. O vice-presidente não disfarça a satisfação com a crescente demanda pelos bazares itinerantes. “Mantemos um bazar de livros e vinis na UFPE que é bem procurado. O mesmo acontece quando viajamos com o bazar de roupas pelo interior do estado”, garante ele. Quanto à presença de atravessadores, Carlos aponta as soluções. “Estamos lutando para impedir isso. Mas às vezes eles conseguem nos despistar”, admite.
Os bazares servem de fonte de renda e de trabalho para os trapeiros. Com o dinheiro arrecadado, os projetos do grupo são mantidos e renovados, dando oportunidade aos jovens de aprender um ofício digno. Para quem precisar, quiser ajudar ou apenas se surpreender, basta visitar um dos bazares. De repente, um olhar mais atento já é o suficiente para perceber relíquias de outrora, como um projetor de slides ou uma máquina fotográfica instantânea. A entrada para qualquer dos bazares realizados é sempre gratuita.

SERVIÇO

Bazar dos Trapeiros de Emaús, na rua Mamede Coelho, nº 53, bairro de Dois Unidos (5as feiras das 14 às 16 horas e sábados das 9 às 11 horas);
Bazar Itinerante de livros e vinis, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, na Cidade Universitária (tardes das 3as e 4as feiras);
Bazar Itinerante de roupas, nas cidades do interior de Pernambuco (consultar agenda de viagem pelo telefone 3451-2247).