terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pernambuco é PET

Pernambuco demonstra como a reciclagem pode dissolver o problema do lixo em benefícios sem precedentes para a sociedade. Acompanhando o ciclo envolvendo o material PET, matéria-prima das famosas garrafas de refrigerante e água mineral, vamos conhecer experiências no estado que utilizam e dão novo sentido a esse resíduo. O modelo a ser mencionado precisa crescer internamente e não deixa de ser referência para outros lugares do Brasil.

Por Arjuna Escobar

Durante o auge da montagem das unidades que configuram a Petroquímica Suape, 5.300 empregos diretos estão sendo gerados. Na fase de operação vão ser 1.800 empregos diretos

O destino do lixo é um dos maiores problemas urbanos. As cidades, em muitas ocasiões, não são dotadas de estruturas para tratar os resíduos produzidos pela população. O resultado são as proliferações de lixões e a inconseqüente poluição de zonas ambientais, e até mesmo, a degradação de regiões habitadas por milhares de pessoas.
Raciocinar maneiras de transformar esse cenário tem sido o ideal de vida de muitos estudiosos, voluntários e anônimos.
Além da boa vontade em proteger o meio ambiente, a corrente mundial em prol da natureza valoriza, também, a questão econômica. Essa relação almeja a viabilização da sustentabilidade, garantindo a manutenção do ideal politicamente correto de vida, mesmo estando dentro da realidade capitalista.
Em 2011, inicia as atividades da unidade de produção do PET no Complexo industrial Portuário de Suape. A fábrica compõe a Petroquímica Suape, subsidiária da Petrobrás no setor petroquímico, a Petroquisa. O investimento de R$ 4 bilhões estrutura o futuro maior pólo de poliéster da América Latina, que ainda conta com unidades de produção de Ácido Terefitálico (PTA) e fios de poliéster.
A operação da Petroquímica Suape vai firmar a produção nacional de resina PET, abastecendo o mercado interno e eliminando a exportação desse produto. O excedente será vendido em mercados da América do Sul. A resina PET produzida no estado se destina ao mercado de embalagens. A partir de 2012, mais 450 mil toneladas de PET será inserida no mundo. Uma pergunta se faz necessária, para onde vai tanto resíduo?

Como todo plástico, o PET deriva do petróleo. Sendo assim, a reciclagem desse material implica na longevidade de um produto com data marcada para acabar. Motivos para justificar a reciclagem não tem limites, ela é necessária e traz impactos positivos para todos.

Lixo que vira artigo de luxo e oportunidades


A Lixiki é uma empresa que reúne os três pilares que edificam a sustentabilidade: respeito ao meio ambiente, economia e transformação social. A empresa aposta na produtividade humana e reutiliza material de descarte, gerando produtos com requintado design e acabamento. Entre as matérias-primas mais utilizadas se encontra o PET, com forte potencial cenográfico e na confecção de sofisticadas luminárias.
Além de desenvolver um trabalho com impactos positivos ao meio ambiente, a Lixiki descentraliza a cadeia produtiva de confecção de seus produtos. Essa função é designada a instituições sociais da região, ampliando o elo social da iniciativa por meio de parcerias. Entre as instituições sociais interligadas à produção está a Fundação Altino Ventura. A FAV atende pessoas carentes na área oftalmológica e gerencia o Projeto Imprimindo um Novo Olhar, cujo ideal é aprimorar técnicas ecologicamente corretas que utilizem o PET, envolvendo atualmente 32 mulheres.

Maria Lúcia de Sousa há dois anos participa do projeto na FAV. “É uma coisa que nunca imaginei esse projeto, pegar as garrafas e transformar em coisas tão bonitas.”

Uma nova luz para o que antes era lixo e agora se transforma em beleza. Muito mais do que ecologicamente correto, o projeto garante a geração de renda

A solução se chama reciclagem
A Frompet é uma indústria localizada na cidade de Jaboatão dos Guararapes. A empresa recicla 1.200 toneladas de garrafas por mês e foi a primeira indústria a revalorizar o PET na América Latina.
O material é adquirido por meio de entidades provindas dos estados de PE, RN, PB, SE, AL e CE. Milhões de garrafas retiradas das praias, canais e ruas.
A Cooperativa de Catadores Pró-Recife, localizada na Imbiribeira, é um dos fornecedores de garrafas à Frompet. Boa parte do material selecionado na cooperativa provém do trabalho dos catadores ou da colaboração de projetos de coleta seletiva. O Wal Mart, rede varejista americana de supermercados, desenvolve um trabalho de coleta com 33 estações em funcionamento na Região Metropolitana do Recife. O material é distribuído entre quatro cooperativas, como a Pró-Recife.
A conexão entre instituições dos mais diferentes ramos reafirma a necessidade de relacionar toda a sociedade na finalidade de se atingir um bem comum. Reciclar significa produzir menos material virgem, economizar energia, proporcionar novos campos de atuação e retirar da natureza materiais com grandes potencialidades artísticas e para a própria indústria.
O PET possui um dos maiores valores no mercado da reciclagem. O Kg. é avaliado entre R$ 0,80 e R$ 0,70 centavos, enquanto outros materiais são vendidos a cinco centavos o kilo, como o papelão.
O universo do PET está em Pernambuco, aberto para ser explorado e incrementado. Ampliar os caminhos já iniciados é bom para a economia, a natureza e as pessoas.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Nova Lei de Adoção facilitam processo e protegem o infante

Legislação sancionada pelo presidente Lula normativa pontos frequentes de dúvida

Por Beatriz Gálvez e Danielle Carvalho

No dia 1º de novembro começarão a valer as novas normas sobre a adoção de crianças e adolescentes no Brasil. Sancionadas pelo presidente Lula no último dia 03 de agosto, as modificações têm como ponto principal a garantia de que esses pequenos brasileiros não passem a vida toda morando em abrigos a espera de uma família. A partir de agora, a cada seis meses todo processo terá que ser novamente analisando pelo juiz responsável, reavaliando a permanência ou não do abandonado em um abrigo, que não poderá passar mais de dois anos. Depois disso, a criança deve ser encaminhada a uma família substituta, permanente ou temporária.

A nova legislação também prevê a possibilidade de uma mãe optar, desde a gestação, em entregar o seu filho para a adoção, que antes era considerado abandono de incapaz. Contudo, a pessoa deverá ser assistida de perto pelo juizado da Infância e Juventude.

Outro ponto positivo é que, se tratando do caso de irmãos abandonados, as novas regras garantem que eles permaneçam unidos sob a tutela de uma mesma família. Se a criança tiver mais de 12 anos no ato da adoção será ouvida em audiência pelo juiz do processo. Além disso, foi regulamentado o tempo de 30 dias para o Estágio de Convivência, que já era adotado por muitos juízes. O período é utilizado para a analise do vínculo afetivo entre adotante e adotado, e só é precedido quando se entende que a convivência anterior entre eles já provê tempo suficiente para a avaliação.

Pela nova lei deve-se esgotar as possibilidades de a criança ser criada por um parente antes de encaminhá-la a adoção. Isso porque a adoção se traduz em extinção de todos os poderes da família biológica sobre a criança. A tentativa de reacomodação do abandonado pode levar anos, já que nem sempre o diálogo, ou mesmo a simples localização da família, são fáceis. A demora diminui sensivelmente a possibilidade se encontrar um novo lar, já que a maioria das pessoas procura uma criança com até seis meses de vida.

Mesmo que o brasileiro ainda se sinta compadecido, não é tão raro ver uma notícia de mais um bebê achado em uma lata de lixo, um saco plástico, ou uma caixa de papelão em um beco qualquer. Ao se deparar com tal constatação, qualquer pessoa comum vai imaginar que há mais crianças sendo abandonadas do que gente disposta a adotá-las, certo? Errado.

No cadastro nacional de adoção constam 23.550 pessoas inscritas, interessadas em adotar o filho enjeitado por alguém. Nesta mesma listagem, apenas 3.300 crianças se encontram disponíveis para adoção. Isso porque o padrão de procura é de meninas caucasianas de até dois anos de idade, com saúde perfeita e sem irmão conhecidos. A maioria das crianças do cadastro são negras, meninos, com irmãos, ou problemas de saúde, acima dos oito anos de idade.

No Brasil, para piorar as estatísticas, é comum a prática da adoção ilegal, onde uma determinada pessoa cria uma criança como se fosse seu filho, mas sem a devida correção legal. Além do fator social e histórico (é uma prática antiga), um dos principais motivos para que se tome essa escolha é o medo de que o processo de legalização da adoção seja burocrático, e não é. O interessado em adotar uma criança deve apenas encaminhar-se ao Núcleo de Adoção da 2ª Vara da Infância e Juventude, na Rua Dr. João Fernandes Vieira 405, na Boa Vista, onde receberá as instruções para continuação do processo. O telefone do juizado é o (81) 3412-3000.


Angelina Jolie e Brad Pitt: casal famoso adotou três crianças estrangeiras


Modelos de adoção mais inovadores não foram inclusos
Nova regulamentação não segue a tendência mundial de modernização

No Brasil o sistema de adoção é fechado, tradicional e controlado pelo poder público, não existindo agências particulares de adoção. O modelo privado é bastante difundido na Europa, Canadá, Estados Unidos, entre outros países; e consiste por um cadastro onde pais que querem dar seu filho para adoção podem escolher quem cuidará de sua criança. O sistema dá mais segurança aos pais que, notando não ter condições de criar seu filho, optam por entregá-lo aos cuidados de outra família. Os indivíduos que optam procurar um infante por meio dessa modalidade têm que, contudo, arcar com custos decorrentes do processo, enquanto o sistema público não envolve gastos processuais.

Os brasileiros têm mais conhecimento procedimento privado através de obras ficcionais estrangeiras, tal como o filme vencedor do Oscar de melhor roteiro original de 2008, “Juno”. A produção trás a história da personagem que dá nome ao filme, que, dona de uma personalidade forte, se vê grávida aos 16 anos de seu melhor amigo. A película revela os dilemas pelos quais passa a jovem, depois de desistir optar pelo aborto e dar o seu filho para adoção. Na obra, que se passa nos Estados Unidos, Juno escolhe um casal que considera que dará uma criação ‘descolada’, mas bem fundamentada e segura ao seu rebento. O processo real, assim como na ficção, é cheio de nuances difíceis, pois escolher criar um pequeno desconhecido ou dar o seu próprio filho a adoção são decisões delicadas.

No Canadá cada província gere seu próprio sistema de adoção, que tem normas diferentes de um canto a outro do país. No caso da província de British Columbia, as adoções de crianças mais velhas ou portadores de deficiência têm um tratamento diferente das demais. O país possui, sistema público e particular de adoção, além da categoria chamada “Criança a Espera” (Waiting Child), que trata justamente desses casos mais urgentes, posto que o infante espera uma solução há mais tempo.

Já na província de Vancouver um tipo diferenciado de adoção e a adoção aberta (Open Adoption). Por essa modalidade a família biológica e a adotiva podem encontrar um meio termo onde o vínculo com os pais de sangue seja mantido de alguma forma. O acordo pode incluir relatórios periódicos sobre o desenvolvimento do adotado, fotos, cartas, e outros documentos, para que os geradores tenham notícias do seu filho. A graduação, nível de abertura e envolvimento são combinados pelas partes.


Adoção é mais difícil para casais homossexuais
Lei Nacional de Adoção retira o direito da adoção para homoafetivos

Na política brasileira, quando o assunto é adoção, o preconceito supera a igualdade dos cidadãos perante a lei. A Lei Nacional de Adoção, sancionada no dia três de agosto de 2009, retira o direito de pais homossexuais adotarem uma criança como um casal. A bancada evangélica pressionou e o Senado cedeu.

Segundo o presidente da ONG Papai, Jorge Lira, a legislação é mais lenta que a mudança na vida das pessoas. “Os direitos para os homossexuais não são garantidos. A homossexualidade não é um problema, mas a homofobia é", alfineta. A organização não-governamental existe há 12 anos na luta em defesa pelos direitos de paternidade.

Em Pernambuco, o juiz da 2ª Vara da Infância e da Juventude, Élio Braz, concedeu, em outubro de 2008, a adoção de duas meninas recifenses, de cinco e sete anos, a um casal homoafetivo masculino de Natal (RN) após inscrição no cadastro de adoção. As meninas, que estavam em um abrigo após abandono e maus-tratos da família biológica, ganharam nova certidão, em que aparecem como filhas de dois pais. O Ministério Público concordou com a sentença judicial e não cabe mais recurso para o caso.

O casal de Goiânia, capital de Goiás, Alessandro Faria, de 29 anos, e Kleomar de Oliveira, 28, estão juntos há três anos e conseguiram adotar duas crianças. No último ano, a casa ganhou mais alegria com a chegada de Luiz Otávio, de seis anos, e Thiago Victor, de cinco. “Cada sorriso e cada beijo só vem ratificar aquilo em que sempre acreditamos: a vontade de ter uma linda família”, vibra Alessandro.

Segundo a presidente do Grupo de Estudo e Apoio à Adoção (Gead) do Recife, Suzana Schettini, é preciso que haja modificações na cultura atual da adoção para que a criança seja o foco. “A justiça trata com muita discriminação o assunto. Há pouco tempo, a adoção era motivo de segredo. Por si só, a adoção ainda sofre preconceito”, destaca a especialista. O assunto costuma ser controverso. A sociedade teme que crianças educadas dentro de famílias homoafetivas tenham, no futuro, possíveis desvios psicológicos. De acordo com Suzana, o que importa de verdade é a existência da família e a transmissão de amor para a criança.


Jorge Lyra: presidente do Instituto Papai


Diálogo franco é o melhor caminho
Segredo pode ocasionar revolta

Luiza Silva* foi adotada ainda bebê. Sem qualquer processo legal, seus pais a registraram como filha logo após o parto. A mãe biológica entregou a criança alegando falta de dinheiro para educá-la. Luiza cresceu e nunca soube que, de fato, não era filha biológica de Martha * e Alexandre Silva*. Aos 20 anos, em uma discussão familiar, veio a notícia. Choro, mágoa e muitas explicações passaram a fazer parte da vida de Luiza. É assim que centenas de crianças são pegas de surpresas pela notícia. Então, qual a hora e a maneira certa de contar ao filho que ele é adotado?

Segundo especialistas, o diálogo franco é sempre a melhor alternativa. “É preciso estar preparado porque o momento aparece de repente. Se o fato for escondido pode ser pior e ocasionar uma revolta por parte da criança ou do adolescente. A conversa e a sinceridade são o que sustentam uma família”, ensina a psicóloga Ana Lúcia Rique.

Solange e Anderson Pires são pais adotivos de Adriana, de apenas oito anos, que entende desde os cinco que é filha do coração e não de sangue, como explica a mãe. A família defende a idéia de que, sabendo a verdade, a filha poderá aprender em seu próprio dia-a-dia que o amor verdadeiro existe, além de laços sanguíneos. “Se no futuro ela quiser procurar os pais verdadeiros, não seremos contra. Confiamos no amor que construímos um pelo outro”, completa o pai satisfeito.

* Nomes fictícios a pedido dos personagens

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Trabalhadores do meu Brasil

Soluções inteligentes para apimentar as vendas no comércio
Por Mariângela Moraes

Se a Teoria do Determinismo Histórico não fosse questionável, um simples vendedor estaria fadado a ser apenas mais um comerciante comum por toda a vida. Mas, vários exemplos poderiam ser citados aqui comprovando a invalidade dessa teoria. No entanto, esta reportagem se propõe a falar de um caso específico: os vendedores que se transformaram em locutores. Eles dominaram o centro do Recife, tanto no comércio formal quanto no informal. Nas ruas Sete de setembro, Imperatriz e do Hospício é praticamente impossível circular na companhia do silêncio. Os vendedores disputam, por meio da locução, seja no grito, com microfone ou megafone, a atenção de quem passa pelas ruas.

A disputa por clientes resulta numa poluição sonora que nem sempre agrada a todos. Como afirma a professora Aldenizia Américo: “Eu até acho válida a presença dos locutores na frente das lojas, mas se os anúncios fossem feitos de forma organizada. É gritaria para todo lado, vendedor de uma loja querendo falar mais alto que o da outra. A cidade já é muito agitada e eles contribuem pro comércio ficar mais desorganizado”. Apesar de haver opiniões adversas, o comércio - é claro - agradece a presença desses locutores. O gerente Rodrigo Santos, da loja Mirelle, na rua da Imperatriz, disse que em um dia sem a presença do locutor as vendas caem cerca de 30% a 40%. “É importante o locutor na frente da loja porque ele está sempre falando as promoções e capta, muitas vezes, a atenção de quem passa distraído”, declara Santos. O gerente acrescentou, ainda, que o profissional acaba se comportando como um tipo de humorista, alegrando as pessoas que circulam pelo centro.
O gerente da Mirelle Rodrigo Santos junto com o locutor da loja Marcos Emanuel

E o humor não é explorado no comércio apenas com o uso da voz. Existem locutores que desempenham um trabalho ainda mais diferenciado através de caracterizações. O estudante de teatro Eduardo Rodrigues acredita que a linguagem gestual também é decisiva para atrair o público. Vestido com um shortinho e munido de uma sombrinha numa versão de Chaplin pós-moderno, Eduardo leva personagens e histórias para as ruas e ganha clientes com suas performances.


Para se destacar entre os locutores, Eduardo opta por fazer perfomances nas ruas.

É interessante destacar que essas abordagens não são uma novidade no comércio. Desde as primeiras feiras livres, as vendas já eram feitas no grito. E o instrumento vocal permanece até hoje como uma forma de seduzir consumidores graças ao poder da comunicação, importante ferramenta de interação que permeia as relações sociais.

Esta classe de trabalhadores que surgiu da necessidade de atrair consumidores e é reconhecida pelos estabelecimentos comerciais como tal, comprova que é possível transpor barreiras pré-determinadas. Pois, antes os locutores não ocupavam uma posição específica nas lojas e recebiam um salário igual aos outros vendedores. Outra prova de que a Teoria do Determinismo Histórico têm exceções é a existência de mulheres neste mercado. A classe feminina chegou a ser discriminada com a desculpa de que a voz não tem a mesma potência (volume) de um homem. Mas, isto não impediu as mulheres de conquistarem seu espaço na locução.

Representante em meio a um mercado dominado por homens, a vendedora de sorvetes Rosemery Vieira afirma não sofrer preconceitos por parte dos consumidores. “Não tem diferença nenhuma porque temos lutado pela igualdade. Hoje, mulher e homem disputam os mesmos empregos na sociedade e se reversam nos papéis. Então, os clientes aceitam da mesma forma sem discriminação”.
A vendedora de sorvetes Rosemery Vieira

Para se sobressair em meio ao barulho ela anuncia os preços dos sovertes batendo palmas e buscando falar o mais alto possível, sem perder a naturalidade, como estivesse conversando com o consumidor.

É esse tipo de relação que faz a diferença na hora de cativar clientes, e talvez justifique a recepção positiva de uma parcela do público. Como é o caso do aposentado Walter Luiz: “O desemprego está enorme, então, eu sou a favor de quem vem buscando outros meios para conquistar um espaço e vencer na vida. É legal o trabalho deles porque anunciam sempre os preços baixos e todo mundo gosta de uma boa penxixa”. Com o aumento nas vendas, estimulado pelos preçinhos baixos, os lucros no comércio são prova do benefício do trabalho dos locutores.

O sucesso desta profissão se deve muito a forma como o locutor interage com o consumidor. Para o gerente, de uma outra loja Mirelle, também na rua da Imperatriz, Lourenço Jesus, a criatividade é uma característica indispensável à função. “Se passar uma pessoa gestante eu oriento a chamar de mamãe e falar das promoções infantis. Se estiver próximo de uma data festiva, como o dia das crianças, dos pais ou das mães, o locutor tem que anunciar os produtos da loja que tenham a ver com isso e fazer brincadeiras também com o público”. Na loja coordenada por Lourenço, a locução é responsável por 50% das vendas.



terça-feira, 22 de setembro de 2009

A atuação do Cendhec no combate ao trabalho infantil

Por Anamaria Nascimento



O Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social desenvolve projetos para combater a exploração da mão-de-obra infantil



Visando sensibilizar a sociedade para a questão do trabalho infantil e do direito à moradia, o Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec) defende e promove, há 19 anos, os direitos humanos, em especial os de crianças e adolescentes e grupos socialmente marginalizados. A ONG desenvolve dois programas: Direito da Criança e do Adolescente e Direito à Cidade.


No programa de Direito da Criança e do Adolescente, o Cendhec realiza diversas atividades sobre trabalho infantil, como a capacitação de educadores e técnicos dos Programas de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) e Agente Jovem. Além disso, realiza a identificação de crianças e adolescentes explorados no trabalho doméstico. “Existem dois tipos de ranking do trabalho infantil no Brasil: um apresenta os números absolutos de casos de exploração de crianças e adolescentes e outro revela percentuais comparados aos dados regionais e nacionais. O Nordeste é líder em ambos os casos”, explicou o coordenador do programa, Renatto Pinto.


A preocupação com o tema é pertinente, pois estima-se que na região cerca de 17% das crianças e adolescentes têm sua força de trabalho explorada em atividades como agricultura, casas de farinha, comércio informal, trabalho doméstico, lixões, entre outras.


O perfil da exploração do trabalho infantil tem sido modificado nos últimos anos. Até 2005, a maior parte dos números era registrada na agricultura, praticada nas zonas mais afastadas. Atualmente, grande parte dos casos pode ser encontrada nos centros urbanos, sobretudo em empregos informais, como o serviço doméstico, o trabalho nas ruas e até o aliciamento de crianças e adolescentes para o roubo e tráfico de drogas.


“Nas grandes cidades, a situação é grave e há conivência dos cidadãos. Vemos, diariamente, crianças sendo exploradas e praticamente nada é feito. Facilitaria se a sociedade mudasse o seu comportamento em relação ao assunto, informando as autoridades sobre a existência, em sua comunidade, de situações de trabalho infantil”, alertou Renatto Pinto.


O primeiro passo a ser tomado, assim que uma situação de exploração da mão-de-obra infantil é identificada, é procurar o Conselho Tutelar da cidade. Caso o órgão não exista no município, a dica é recorrer a uma superintendência regional do trabalho ou mesmo ao Ministério Público do Trabalho.


O trabalho infantil é um fenômeno social que atinge 5,4 milhões de crianças e adolescentes brasileiros na faixa dos cinco aos 17 anos, segundo o IBGE. Para essas pessoas, são negados direitos fundamentais como a educação, o lazer, a profissionalização e a convivência familiar, bem como a falta de garantia da proteção integral, como proclama a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal nº 8.069/90).



Renatto Pinto, coordenador do programa Direitos da Criança e do Adolescente, destaca que o Nordeste é líder no ranking de exploração do trabalho infantil.

domingo, 20 de setembro de 2009

Mulheres Lésbicas no Poder: Elas Existem, Elas Exigem!

Por José Luiz Coutinho

O Parque 13 de Maio no Centro do Recife foi transformado no dia 28 de Agosto em palco por mais uma luta das cidadãs pernambucanas. Pessoas que lutam por seus direitos e dão suporte ao direito do próximo. Dessa vez a luta foi das mulheres lésbicas.

No dia que antecede o 29 de Agosto, Dia da Visibilidade Lésbica, aconteceu a 2ª Caminhada da Visibilidade Lésbica. O que essa mulheres comuns reivindicam é o fim da lesbofobia, que significa aversão, medo ou nojo às mulheres que amam outras mulheres. Elas só querem ter o direito de amar como todos os outros cidadãos e com isso unificaram a luta também contra o machismo e o racismo.

Synara Klynn, integrante do Coletivo Nacional de Lésbicas Negras - Candaces, afirma que as mulheres querem ser vistas enquanto lésbicas e querem ter suas identidades reconhecidas. Ela chama todos, homens e mulheres, para participar da Marcha, mas grita que a luta é só das lésbicas. E ressalta: “se já é difícil ser lésbica na sociedade brasileira, imagine ser lésbica negra.”

As mulheres também transformaram a comemoração do Dia da Visibilidade Lésbica em uma semana inteira com debates, palestras, roda de diálogos e panfletagem pela cidade. Ana Carla Lemos, coordenadora do grupo pernambucano de lésbicas - Luas, diz que é importante que a lesbianidade das mulheres seja discutida nas escolas e nos meios de comunicação e que a luta é também contra o patriarcado.

Apesar da pouca quantidade de gente na Caminhada da Visibilidade Lésbica, elas inquietaram e inquietam muita gente que não está acostumada com a manifestação do amor livre entre mulheres. E seguiram tranquilamente até a praça do Carmo onde finalizaram a caminhada com um show.



Para encerrar o que foi transformado em Semana da Visibilidade Lésbica, no dia 29 de Agosto aconteceu, no Teatro de Parque, um encontro aberto à sociedade. Onde foi apresentada a homossexualidade feminina com fotos, filmes, peças teatrais, músicas, danças e recital de poesias. Ao final do encontro, foi feita uma roda de diálogo onde elas discutiam a dificuldade de exercer a lesbianidade e a importância da aceitação. Então, depois entrar na luta pelo poder para que a sociedade as aceitem não só como mulheres, mas sim mulheres lésbicas.


domingo, 13 de setembro de 2009

“Somos 2.500 trabalhadores e trabalhadoras rurais Sem Terra, de todo o estado de Pernambuco”

POR MARIA ALINE MORAES


Marcharam para reafirmar a necessidade da realização da Reforma Agrária como uma política de distribuição de terra, de renda e de justiça social

O início do mês de agosto foi marcado pelas mobilizações dos Sem Terra em todo o Brasil. Em Pernambuco, a Marcha percorreu 64 quilômetros, passando pelos municípios de Pombos, Vitória de Santo Antão, Bonança e Moreno até, finalmente, chegar em Recife, no dia 12. Na capital, segundo a coordenadora nacional do MST, a pernambucana Missilene Goreti, cerca de 1.700 trabalhadores marcharam do Atacado dos Presentes, da BR-232, até a reitoria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde líderes e estudantes de diversos movimentos discursaram em favor do direito à terra. Entre eles, a diretora estadual do MST lembrou que 58% das famílias brasileiras vivem com os R$ 200 oferecidos pelo Bolsa Família mas que não é isso que o povo quer, “Ou se mata de vergonha ou vicia o cidadão”, citou Gonzaguinha. Por volta das 17h, a Marcha seguiu para o Parque de Exposições do Cordeiro, onde os integrantes passaram a noite para seguir no outro dia (13) para o Centro do Recife com parada final no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), onde aconteceu o encontro com membros do Governo do Estado e do Incra.






Lourença Siqueira, que no dia 16 completou 80 anos, junto a sua filha, Roselle Siqueira, ambas integrantes do Fórum de Ações Populares e da Associação Pernambucana de Anistiados Políticos – APAP, participaram da Marcha dos Sem Terra. Exemplo da relação de apoio mútuo entre os movimentos urbanos e agrários, o que representa uma nova fase na maturidade dos movimentos sociais no Estado.

“Participo da militância desde a época da ditadura militar e da construção do PT. O que acontece hoje é que as pessoas estão sem ação. Muitas delas estão no governo. Na minha opinião, o movimento está mais devagar depois que Lula foi eleito porque o povo fica sendo enganado, iludido”, disse Roselle.



Gleisa nasceu há 23 anos no primeiro assentamento do Brasil, o Nova Ronda Alta, no Rio Grande do Sul. Veio para Recife em janeiro, através do Coletivo da Juventude. Consigo, trouxe o filho de 11 anos, que literalmente seguiu os passos da mãe durante os 18 km percorridos na Marcha do dia 12.

“O Governo Lula adotou uma política de compensação ao invés da política de transformação, que está ainda mais devagar. Essa escolha só contribuiu para desarticular o movimento porque faz com que muitas pessoas se contentem com isso e se acomodem na luta. Mas, mesmo em meio a tantas dificuldades estamos organizados para construir e avançar na luta”, definiu Gleisa.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009