quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Trabalhadores do meu Brasil

Soluções inteligentes para apimentar as vendas no comércio
Por Mariângela Moraes

Se a Teoria do Determinismo Histórico não fosse questionável, um simples vendedor estaria fadado a ser apenas mais um comerciante comum por toda a vida. Mas, vários exemplos poderiam ser citados aqui comprovando a invalidade dessa teoria. No entanto, esta reportagem se propõe a falar de um caso específico: os vendedores que se transformaram em locutores. Eles dominaram o centro do Recife, tanto no comércio formal quanto no informal. Nas ruas Sete de setembro, Imperatriz e do Hospício é praticamente impossível circular na companhia do silêncio. Os vendedores disputam, por meio da locução, seja no grito, com microfone ou megafone, a atenção de quem passa pelas ruas.

A disputa por clientes resulta numa poluição sonora que nem sempre agrada a todos. Como afirma a professora Aldenizia Américo: “Eu até acho válida a presença dos locutores na frente das lojas, mas se os anúncios fossem feitos de forma organizada. É gritaria para todo lado, vendedor de uma loja querendo falar mais alto que o da outra. A cidade já é muito agitada e eles contribuem pro comércio ficar mais desorganizado”. Apesar de haver opiniões adversas, o comércio - é claro - agradece a presença desses locutores. O gerente Rodrigo Santos, da loja Mirelle, na rua da Imperatriz, disse que em um dia sem a presença do locutor as vendas caem cerca de 30% a 40%. “É importante o locutor na frente da loja porque ele está sempre falando as promoções e capta, muitas vezes, a atenção de quem passa distraído”, declara Santos. O gerente acrescentou, ainda, que o profissional acaba se comportando como um tipo de humorista, alegrando as pessoas que circulam pelo centro.
O gerente da Mirelle Rodrigo Santos junto com o locutor da loja Marcos Emanuel

E o humor não é explorado no comércio apenas com o uso da voz. Existem locutores que desempenham um trabalho ainda mais diferenciado através de caracterizações. O estudante de teatro Eduardo Rodrigues acredita que a linguagem gestual também é decisiva para atrair o público. Vestido com um shortinho e munido de uma sombrinha numa versão de Chaplin pós-moderno, Eduardo leva personagens e histórias para as ruas e ganha clientes com suas performances.


Para se destacar entre os locutores, Eduardo opta por fazer perfomances nas ruas.

É interessante destacar que essas abordagens não são uma novidade no comércio. Desde as primeiras feiras livres, as vendas já eram feitas no grito. E o instrumento vocal permanece até hoje como uma forma de seduzir consumidores graças ao poder da comunicação, importante ferramenta de interação que permeia as relações sociais.

Esta classe de trabalhadores que surgiu da necessidade de atrair consumidores e é reconhecida pelos estabelecimentos comerciais como tal, comprova que é possível transpor barreiras pré-determinadas. Pois, antes os locutores não ocupavam uma posição específica nas lojas e recebiam um salário igual aos outros vendedores. Outra prova de que a Teoria do Determinismo Histórico têm exceções é a existência de mulheres neste mercado. A classe feminina chegou a ser discriminada com a desculpa de que a voz não tem a mesma potência (volume) de um homem. Mas, isto não impediu as mulheres de conquistarem seu espaço na locução.

Representante em meio a um mercado dominado por homens, a vendedora de sorvetes Rosemery Vieira afirma não sofrer preconceitos por parte dos consumidores. “Não tem diferença nenhuma porque temos lutado pela igualdade. Hoje, mulher e homem disputam os mesmos empregos na sociedade e se reversam nos papéis. Então, os clientes aceitam da mesma forma sem discriminação”.
A vendedora de sorvetes Rosemery Vieira

Para se sobressair em meio ao barulho ela anuncia os preços dos sovertes batendo palmas e buscando falar o mais alto possível, sem perder a naturalidade, como estivesse conversando com o consumidor.

É esse tipo de relação que faz a diferença na hora de cativar clientes, e talvez justifique a recepção positiva de uma parcela do público. Como é o caso do aposentado Walter Luiz: “O desemprego está enorme, então, eu sou a favor de quem vem buscando outros meios para conquistar um espaço e vencer na vida. É legal o trabalho deles porque anunciam sempre os preços baixos e todo mundo gosta de uma boa penxixa”. Com o aumento nas vendas, estimulado pelos preçinhos baixos, os lucros no comércio são prova do benefício do trabalho dos locutores.

O sucesso desta profissão se deve muito a forma como o locutor interage com o consumidor. Para o gerente, de uma outra loja Mirelle, também na rua da Imperatriz, Lourenço Jesus, a criatividade é uma característica indispensável à função. “Se passar uma pessoa gestante eu oriento a chamar de mamãe e falar das promoções infantis. Se estiver próximo de uma data festiva, como o dia das crianças, dos pais ou das mães, o locutor tem que anunciar os produtos da loja que tenham a ver com isso e fazer brincadeiras também com o público”. Na loja coordenada por Lourenço, a locução é responsável por 50% das vendas.



Nenhum comentário:

Postar um comentário